Neste artigo, o primeiro de duas partes sobre o mesmo tema, procede-se a uma breve revisão histórica sobre os conceitos que prevaleceram, relativamente à natureza do sangue e circulação sanguínea, desde a Antiguidade e até à resolução do problema por William Harvey, no século XVI. Pela vivissecção de diversos tipos de animais, pôde Harvey definir um modelo geral e lógico para toda a circulação sistémica que contradizia conceptualizações anteriores, designadamente as que haviam sido definidas por Galeno, cerca de catorze séculos antes. A influência que Galeno ainda exercia sobre, virtualmente, todos os assuntos médicos terá justificado as hesitações e escrúpulos de Harvey, que publicou somente as suas conclusões treze anos depois de as ter obtido. Também explica a polémica estabelecida com colegas sobre o assunto, que se manteve até ao seu falecimento. Todavia, através de cuidadosa observação e investigação perseverante, Harvey demonstrou claramente que o coração era o órgão central do sistema, de que dependia a
propulsão do sangue para as artérias e, depois o seu retorno por vasos diferentes, as veias, até ao ponto de partida. O sangue proveniente do coração seria diferente do que regressasse aquele órgão, atribuindo essa diferença (em cor e fluidez) à presença de conteúdos próprios, nutritivos para o organismo por ele irrigado. Caracterizou a pulsação sanguínea como resultante do enchimento das artérias pelo sangue arterial veiculado a cada contracção cardíaca. Revelou que o sangue arterial saía do coração pela contracção do ventrículo esquerdo, a qual ocorria em simultâneo com a do ventrículo direito e, em ambos, depois da contracção das aurículas. Confirmou que o sangue passava do ventrículo direito para a aurícula esquerda e, desta, para o ventrículo esquerdo, através da circulação pulmonar. Pelo cálculo do volume de sangue debitado diariamente pelo coração, considerou que o sangue não poderia ser consumido pelo corpo e teria de circular continuamente pelo coração e rede vascular. Ainda que não tenha confirmado completamente a continuidade da rede circulatória, não deixou de considerar a existência de passagens minúsculas ou imperceptíveis entre as artérias e veias, que seriam posteriormente confirmadas, por Marcello Malpighi, sob a forma de redes capilares. O sentido unidireccional do fluxo sanguíneo era assegurado também por válvulas presentes no coração e nas veias. O modelo estabelecido por Harvey para a circulação sanguínea foi extrapolado para o Homem sendo corroborado nos séculos seguintes. Malpighi e, depois, Van Leeuwenhoek contribuíram, em especial, para um melhor esclarecimento da composição e características do sangue e a importância exercida sobre a respectiva perfusão através dos diferentes vasos da rede circulatória.
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